Coisas da Vida

"Coisas da Vida"

Dina nasceu em Portugal
Os pais vieram d'África à procura duma vida normal
Mas não passou de ilusão
Apenas fé no coração
Mas a fé não alimenta, fome rebenta
Dino tem dois anos se calhar já nem s'aguenta
Alegria não sabem o que é
O pai trabalha todo o dia, a mãe tem que ficar com o bebé
Vivem numa barraca bué fatela
Quatro paredes velhas, uma porta, um telhado e uma janela
A casa de banho é um balde e uma lata
Um colchão para os três, a vida é bem ingrata
Quarenta contos para o mês inteiro
A vida vai de mal a pior e cada vez há menos dinheiro
Mas lá vão sobrevivendo, Dino vai crescendo, ao mesmo tempo
Aprendendo e vendo
Como tudo é sacrificio
É melhor ir para a escola para seu próprio benefício
Não há maneira pa'comprar o material
O pai trabalha como um burro, a mãe ‘tá bué da mal
Aos 9 anos consegue ir estudar
Dá para desenrrascar, mas só sabem lh'insultar
É preto dali, preto daqui
Queixa-se à professora mas ela não liga apenas se ri
Os anos passam, chega ao oitavo
Chega de escola, chega de fazer figura de parvo
Meteu-se com as más companhias
Agora vende droga e tem dinheiro todos os dias
De tempos em tempos vai parar à cadeia, semana e meia
Situação tá feia, mas lá se remedeia
No fim do túnel há sempre uma luz
A mãe chora em vão, mas ‘inda acredita em Jesus
Coisas da vida

Ataca um jovem com um bastão
Desta vez não escapou e acabou na prisão
Sem solução, foi preso por ser homicida
Ferida não será esquecida, agora é tarde pa' mudar de vida
Apanha dez anos na sentença, crime não compensa
Uma desgraça não vem só a mãe morreu de doença
Desgosto, tristeza no rosto do pai
Que tem muito ‘pa chorar tão cedo Dino não sai
Pai desgostoso, filho criminoso
Dino só pensa em fugir daquele lugar horroroso
Mas será que é capaz?
Sabe qu'errou no fundo não é mau rapaz
Dez anos atrás das grades, aprende as verdades
O tempo custa a passar enquanto morre de saudades
A consciência pessa-lhe todos os dias
Não há regalias, restam sonhos e fantasias
Coisas da vida

Chegou o seu momento
Cinco anos depois saiu por bom comportamento
A liberdade é condicional
Agora chegou a altura de levar uma vida normal
Longe do crime Dino quer é sossego
Mas não tem dinheiro nem casa, tem qu'arranjar emprego
Vai-se arranjando na casa do cota
Levanta-se cedo, compra o jornal e põe a fatiota
E tenta a sua sorte à procura de trabalho
"Então você tem cadastro?" "Infelizmente sim" "Vá p'ó caralho!"
Dia após dia, a mesma resposta
Continuou sem emprego até que lhe foi feita uma proposta
Certo dia não aguentou mais
A única solução eram os negócios ilegais
Nada a perder aceitou a oferta
Não há moral que resista quando a fome aperta
Mas o sol pouco durou
Uma transacção deu p'ó torto, alguém o matou
São as coisas da vida
Saiu da prisão meteu-se num beco sem saída
Foi tratado como uma doença
Tentou ser honesto, mas ditaram-lhe a sentença
Mais tenho a dizer que é fodido
Um gajo sair da prisão e não ser reinserido
Pensem nisso